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Semaglutida e Perda de Peso: Revisão da Investigação Científica em 2026

Equipa de Investigação NorPeptMarch 9, 202613 min

Introdução à semaglutida

A semaglutida é um análogo peptídico do GLP-1 (glucagon-like peptide-1) que se tornou um dos compostos mais discutidos na investigação metabólica contemporânea. Desenvolvida originalmente para a investigação do controlo glicémico, a semaglutida ganhou destaque internacional pelos efeitos observados na regulação do peso corporal, tornando-se objeto de um volume sem precedentes de investigação científica.

Com uma sequência de trinta e um aminoácidos modificada em relação ao GLP-1 endógeno, a semaglutida representa um exemplo paradigmático de como a engenharia peptídica pode transformar uma hormona endógena de semivida curta num composto com propriedades farmacocinéticas radicalmente melhoradas. Em 2026, a investigação com semaglutida continua a expandir-se, abrangendo novas áreas que vão muito além do metabolismo da glicose e do peso corporal.

Para a comunidade científica portuguesa, a semaglutida é particularmente relevante, dado que Portugal enfrenta desafios significativos relacionados com a prevalência da obesidade e da diabetes tipo 2. A investigação nesta área pode contribuir para uma compreensão mais profunda dos mecanismos metabólicos e para o desenvolvimento de abordagens inovadoras. Nota: A semaglutida discutida neste artigo refere-se ao peptídeo de investigação e destina-se apenas para fins de investigação laboratorial.

Mecanismo do recetor GLP-1

Para compreender a ação da semaglutida, é essencial conhecer a biologia do recetor GLP-1 e do sistema incretínico. O GLP-1 é uma hormona incretina produzida pelas células L do intestino delgado em resposta à ingestão de alimentos. Esta hormona desempenha um papel central na regulação da homeostasia da glicose e do apetite.

O recetor GLP-1 (GLP-1R) é um recetor acoplado à proteína G, expresso em múltiplos tecidos, incluindo as células beta pancreáticas, o sistema nervoso central (particularmente o hipotálamo e o tronco cerebral), o coração, o rim e o trato gastrointestinal. A ativação deste recetor desencadeia uma cascata de sinalização que inclui o aumento do AMP cíclico (cAMP) e a ativação da via PKA.

No pâncreas, a ativação do GLP-1R nas células beta promove a secreção de insulina de forma dependente da glicose — um mecanismo que constitui uma vantagem de segurança significativa em relação a outros secretagogos da insulina, pois reduz o risco de hipoglicemia. Simultaneamente, o GLP-1 suprime a secreção de glucagon pelas células alfa, contribuindo para um melhor controlo glicémico.

No sistema nervoso central, o GLP-1 atua como neurotransmissor e modulador do apetite. A ativação dos recetores GLP-1 no núcleo arqueado do hipotálamo e no núcleo do trato solitário promove a saciedade e reduz a ingestão alimentar. Este efeito central é considerado o principal mecanismo pelo qual os agonistas do GLP-1R influenciam o peso corporal.

A semaglutida, como agonista do GLP-1R, mimetiza e potencia estes efeitos fisiológicos. As suas modificações estruturais — que serão detalhadas na secção seguinte — permitem-lhe ligar-se ao recetor com elevada afinidade e manter a sua atividade durante períodos prolongados, amplificando assim os efeitos do GLP-1 endógeno.

Estrutura e farmacocinética

A semaglutida foi desenhada com modificações estruturais específicas que lhe conferem propriedades farmacocinéticas superiores ao GLP-1 nativo. Estas modificações representam um triunfo da engenharia peptídica e merecem uma análise detalhada.

A sequência da semaglutida é baseada na do GLP-1 humano (7-37), com três modificações principais. Primeiro, o aminoácido na posição 8 foi substituído por ácido 2-aminobutírico (Aib), conferindo resistência à degradação pela enzima dipeptidil peptidase-4 (DPP-4), que normalmente inativa o GLP-1 endógeno em poucos minutos. Segundo, o aminoácido na posição 34 foi substituído por arginina. Terceiro — e mais significativo — foi introduzida uma cadeia lateral de ácido gordo C18 ligada à lisina na posição 26 através de um espaçador de ácido glutâmico e mini-PEG.

Esta cadeia de ácido gordo é a chave para a semivida prolongada da semaglutida. Ao ligar-se reversivelmente à albumina sérica, o ácido gordo cria um reservatório circulante que liberta gradualmente o peptídeo ativo, prolongando a sua semivida para aproximadamente sete dias — um aumento extraordinário face aos dois a três minutos do GLP-1 endógeno.

A biodisponibilidade da semaglutida varia conforme a via de administração. A formulação subcutânea apresenta uma biodisponibilidade de aproximadamente 89%, enquanto a formulação oral — uma inovação notável para um peptídeo — utiliza um intensificador de absorção (SNAC — salcaprozato de sódio) para facilitar a passagem pela barreira gástrica, alcançando uma biodisponibilidade de cerca de 1%, que, embora baixa em termos absolutos, é suficiente para alcançar concentrações terapeuticamente relevantes.

A farmacocinética da semaglutida tem sido extensamente estudada através de modelação computacional e estudos em múltiplas espécies, proporcionando aos investigadores uma base robusta para o desenho de protocolos experimentais. O volume de distribuição é de aproximadamente 12,5 litros, e a eliminação ocorre por degradação proteolítica e excreção renal e fecal dos metabolitos.

Estudos clínicos sobre o peso

A evidência clínica sobre os efeitos da semaglutida no peso corporal é extensa e robusta, baseando-se em programas de investigação de grande dimensão que envolveram milhares de participantes em contextos multicêntricos e multinacionais.

O programa de ensaios STEP (Semaglutide Treatment Effect in People with obesity) constituiu um marco na investigação sobre a regulação do peso corporal. O ensaio STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que participantes tratados com semaglutida 2,4 mg por semana durante 68 semanas apresentaram uma redução média do peso corporal de 14,9%, comparativamente a 2,4% no grupo placebo. Estes resultados foram estatisticamente significativos e clinicamente relevantes.

Os ensaios STEP subsequentes exploraram diferentes populações e contextos. O STEP 2 avaliou a semaglutida em participantes com diabetes tipo 2 e obesidade, o STEP 3 combinou a semaglutida com intervenção comportamental intensiva, e o STEP 4 avaliou a manutenção do peso após a descontinuação do tratamento. Coletivamente, estes estudos proporcionaram uma compreensão abrangente do perfil de eficácia da semaglutida na regulação ponderal.

Dados publicados em 2025 e 2026 alargaram ainda mais a base de evidência, com estudos que avaliaram os efeitos a longo prazo — superiores a dois anos — da semaglutida no peso corporal e em parâmetros cardiometabólicos. O estudo SELECT, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a semaglutida reduziu significativamente o risco de eventos cardiovasculares adversos major em participantes com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso ou obesidade, sem diabetes.

A análise de subgrupos revelou que a resposta à semaglutida apresenta variabilidade interindividual considerável, com alguns participantes a alcançarem reduções de peso superiores a 20% e outros a apresentarem respostas mais modestas. A investigação dos determinantes genéticos e epigenéticos desta variabilidade constitui uma área ativa de estudo.

Efeitos metabólicos além do peso

Para além dos efeitos no peso corporal, a investigação com semaglutida tem revelado um espectro de efeitos metabólicos e sistémicos que expandem significativamente o interesse científico neste composto.

Metabolismo lipídico: Estudos demonstraram que a semaglutida reduz os níveis de triglicéridos, colesterol LDL e ácidos gordos livres, enquanto aumenta modestamente o colesterol HDL. Estes efeitos no perfil lipídico são parcialmente independentes da perda de peso, sugerindo mecanismos diretos do GLP-1R na regulação do metabolismo dos lípidos.

Inflamação sistémica: A ativação do GLP-1R pela semaglutida está associada a uma redução dos marcadores inflamatórios, incluindo a proteína C-reativa de alta sensibilidade (hs-CRP), a interleucina-6 (IL-6) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). Esta ação anti-inflamatória pode contribuir para os benefícios cardiovasculares observados nos estudos clínicos.

Esteatose hepática: A investigação sobre os efeitos da semaglutida na doença hepática gordura não-alcoólica (DHGNA) e na esteatohepatite não-alcoólica (EHNA) tem produzido resultados encorajadores. Estudos demonstraram reduções significativas no conteúdo de gordura hepática e melhorias histológicas em participantes com EHNA, uma área de grande relevância dado o aumento da prevalência destas condições.

Efeitos renais: Dados emergentes sugerem que a semaglutida pode exercer efeitos nefroprotetores, com reduções na albuminúria e preservação da taxa de filtração glomerular em estudos observacionais e ensaios controlados. Estas observações motivaram o desenho de ensaios clínicos específicos para avaliar os efeitos renais dos agonistas do GLP-1R.

Efeitos neurológicos: Uma das áreas mais inovadoras da investigação com semaglutida é o seu potencial efeito neuroprotetor. Estudos pré-clínicos demonstraram efeitos benéficos em modelos de doença de Alzheimer e doença de Parkinson, possivelmente mediados pela ativação do GLP-1R no sistema nervoso central. Ensaios clínicos em curso estão a avaliar esta hipótese em populações humanas.

Semaglutida vs tirzepatida

A comparação entre semaglutida e tirzepatida é uma das questões mais debatidas na investigação metabólica contemporânea. Enquanto a semaglutida é um agonista seletivo do GLP-1R, a tirzepatida é um agonista dual dos recetores GLP-1 e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose), representando uma abordagem farmacológica distinta.

O GIP é outra hormona incretina que, tal como o GLP-1, é libertada pelas células intestinais em resposta à ingestão de alimentos e potencia a secreção de insulina. A combinação da ativação dos recetores GLP-1 e GIP pela tirzepatida produz efeitos complementares na regulação da glicose e do metabolismo energético.

Os ensaios SURPASS e SURMOUNT com tirzepatida demonstraram reduções de peso corporal que, em média, foram superiores às observadas com semaglutida nos ensaios STEP. No ensaio SURMOUNT-1, os participantes tratados com a dose mais elevada de tirzepatida alcançaram uma redução média de peso de 22,5% após 72 semanas, comparativamente aos 14,9% observados com semaglutida 2,4 mg no STEP 1.

Contudo, a comparação direta entre estes compostos requer cautela. As diferenças nas populações estudadas, nos protocolos de tratamento e nos critérios de inclusão e exclusão limitam a comparabilidade dos resultados entre programas de investigação distintos. O ensaio SURPASS-2 incluiu uma comparação direta com semaglutida 1 mg (dose para diabetes, não para obesidade), demonstrando a superioridade da tirzepatida no controlo glicémico.

Do ponto de vista da investigação, ambos os compostos representam ferramentas valiosas para o estudo do sistema incretínico e da regulação metabólica. A semaglutida, com o seu perfil de agonismo seletivo do GLP-1R, permite isolar os efeitos da ativação deste recetor, enquanto a tirzepatida oferece perspetivas sobre as interações entre as vias de sinalização GLP-1 e GIP.

Investigação em Portugal e na Europa

A investigação com agonistas do GLP-1R em Portugal e na Europa tem acompanhado as tendências globais, com contribuições significativas de centros de investigação, universidades e hospitais universitários.

Em Portugal, a prevalência da obesidade e da diabetes tipo 2 torna a investigação com semaglutida particularmente pertinente. Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, a prevalência de excesso de peso e obesidade na população adulta portuguesa ultrapassa os 50%, sublinhando a importância de compreender os mecanismos metabólicos que os agonistas do GLP-1R modulam.

A Universidade de Lisboa, a Universidade do Porto e a Universidade de Coimbra mantêm grupos de investigação ativos nas áreas da endocrinologia e do metabolismo, que acompanham de perto os desenvolvimentos na ciência dos agonistas GLP-1R. A participação de centros portugueses em ensaios clínicos multicêntricos europeus tem contribuído para o acesso a dados de investigação de primeira linha.

A nível europeu, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) tem desempenhado um papel crucial na avaliação e regulação dos agonistas do GLP-1R, garantindo que a investigação e a prática clínica se baseiam em evidências robustas de segurança e eficácia. A harmonização regulatória europeia facilita a colaboração entre centros de investigação de diferentes países, incluindo Portugal.

O programa Horizonte Europa tem financiado projetos de investigação na área do metabolismo e da obesidade, incluindo estudos que envolvem agonistas do GLP-1R. Estes financiamentos proporcionam aos investigadores portugueses a oportunidade de participar em consórcios europeus de investigação de grande envergadura.

A investigação pré-clínica com semaglutida como peptídeo de investigação é igualmente relevante em Portugal, permitindo aos investigadores estudar os mecanismos moleculares e celulares da ação do GLP-1R em modelos experimentais controlados, utilizando peptídeos de elevada qualidade como os fornecidos pela NorPept.

Perfil de segurança na investigação

A compreensão do perfil de segurança da semaglutida é essencial para o desenho e a interpretação de estudos de investigação. Os dados de segurança provêm tanto de ensaios clínicos controlados como de estudos de vigilância pós-comercialização.

Os efeitos adversos mais frequentemente reportados nos ensaios clínicos são de natureza gastrointestinal: náuseas, vómitos, diarreia e obstipação. Estes efeitos são geralmente dose-dependentes, mais frequentes nas primeiras semanas de tratamento, e tendem a diminuir com o tempo. A estratégia de escalonamento gradual da dose foi desenvolvida para minimizar estes efeitos.

A investigação sobre o risco de pancreatite associada aos agonistas do GLP-1R tem sido objeto de atenção considerável. Os dados agregados dos ensaios clínicos e dos estudos observacionais não demonstraram um aumento estatisticamente significativo do risco de pancreatite aguda, embora os investigadores devam manter vigilância sobre este parâmetro nos seus estudos pré-clínicos.

Estudos pré-clínicos em roedores revelaram um aumento da incidência de tumores de células C da tiroide em animais tratados com agonistas do GLP-1R. Contudo, a relevância destes achados para outras espécies, incluindo humanos, é considerada limitada, dado que a expressão e a sensibilidade do GLP-1R nas células C da tiroide difere substancialmente entre espécies.

Para os investigadores que trabalham com semaglutida como peptídeo de investigação, é fundamental seguir as boas práticas de laboratório (BPL) e as normas de segurança aplicáveis ao manuseamento de compostos peptídicos bioativos. A utilização de equipamento de proteção individual adequado e a eliminação segura dos resíduos são requisitos obrigatórios.

O futuro dos agonistas GLP-1

O campo dos agonistas do GLP-1R está em rápida evolução, com múltiplas moléculas em desenvolvimento que prometem expandir as fronteiras da investigação metabólica. Várias tendências emergentes merecem a atenção dos investigadores.

Os agonistas multi-incretínicos — como os triagonistas que combinam a ativação dos recetores GLP-1, GIP e glucagon — representam a próxima geração de compostos em investigação. Estes peptídeos de tripla ação oferecem perspetivas de efeitos metabólicos amplificados, embora a complexidade farmacológica da ativação simultânea de três recetores exija investigação cuidadosa.

A formulação oral de peptídeos continua a evoluir, com o desenvolvimento de novas tecnologias de permeação que podem melhorar a biodisponibilidade oral da semaglutida e de outros análogos peptídicos. Esta linha de investigação é crucial para a aceitabilidade e a acessibilidade dos tratamentos baseados em peptídeos.

As aplicações neurológicas dos agonistas do GLP-1R, particularmente nas doenças neurodegenerativas, representam uma das fronteiras mais promissoras da investigação. Os resultados dos ensaios clínicos em curso na doença de Alzheimer e na doença de Parkinson poderão transformar a compreensão do papel do GLP-1R na neuroproteção.

A personalização da terapêutica baseada em biomarcadores genéticos e metabólicos é outra área em expansão. A identificação de marcadores que prevejam a resposta individual à semaglutida poderá permitir abordagens mais personalizadas, otimizando a relação benefício-risco.

Conclusão

A semaglutida representa um dos avanços mais significativos na investigação metabólica das últimas décadas. Os seus mecanismos de ação, extensamente estudados, e a robusta base de evidência clínica fazem deste agonista do GLP-1R um composto de referência para a investigação científica.

Para os investigadores em Portugal e na Europa, a semaglutida oferece oportunidades de investigação em múltiplas áreas, desde a endocrinologia até à neurociência. A qualidade do peptídeo de investigação é fundamental para a obtenção de resultados fiáveis, e a NorPept assegura os mais elevados padrões de pureza e certificação laboratorial.

Apenas para fins de investigação. A semaglutida discutida neste artigo refere-se ao peptídeo de investigação e não se destina a consumo humano. Os investigadores devem cumprir todas as regulamentações aplicáveis, incluindo as orientações do INFARMED e da EMA.